Capitule

"Eu apertei o play e coloquei a nossa música pra tocar. Não me pergunte porquê, como, quando… Eu só… Apertei o play. Com apenas um toque a melodia suave voltou a soar e o meu coração se inflou de tudo o que eu jurei jamais sentir. Meu peito agora dói. Meus braços, minha nuca, meus dedos… Tudo dói. E o tudo já doeu antes - incontáveis vezes, por sinal - mas não como agora. A dor não é dor, entende? Porque saudade é dor, angustia é dor, nostalgia é dor…. Isso não é dor. Isso se chama as ruínas quebradas de um castelo onde já habitou amor. Tudo bem, eu sei que já me mudei pra outro reino, outro castelo, outros costumes, outros pseudo-príncipes e tudo mais. Eu sei que acabei com todos os monstros horripilantes que cercavam o meu quase-conto-de-fadas. Eu sei que já superei, me reergui, me restabeleci e me reafirmei. O problema é que destruir um castelo não significa necessariamente que ele vá sumir do mapa. Eu posso dar a volta no planeta, meu caro, não importa: ainda saberei decorado o caminho de volta pra casa. Não interessa quantas vezes eu mate os monstros ou ria dos estragos, eles sempre voltam. Uma hora ou outra, entre o intervalo de uma risada e um choro perdido… O castelo em ruínas aparece pra mim, escondido, no meio dos sonhos ou dos pesadelos cruéis, no centro da realidade ou no centro dos papéis. Eu, agora, estou pisando nas ruínas - tão frias quanto quem anda sobre elas. E o que dói não é ver os meu esforços ali, feito lixo, jogados sem nenhum abrigo, sem nenhum teto, sem nenhum zelo. O que dói, no fundo, meu caro, é não saber mais como reciclar o lixo que eu mesma formei, tornei e fiz. Sabe os monstros horripilantes, dragões que cospem fogo e bruxas malvadas? Estes não existem mais. Só… eu. O monstro é a princesa perdida no reino que se perdeu. O monstro é aquela que não sabe mais amar porque amar qualquer coisa dói pra cacete e ninguém entende. O monstro é aquela que cruza os braços, faz cara feia e mostra o dedo do meio pro primeiro palhaço que disser que a vida pode sim ser magnifica. Magnifica o escambal! Eu digo. É tudo uma grande porcaria! Eu grito. Não adianta, nada adianta… Com isso eu já me acostumei. O que eu não aceito nem nunca vou aceitar em hipótese alguma são essas rasteiras repentinas que o mundo resolve me dar, assim, sem nenhum motivo aparente. Me diz onde foi que eu errei, vai. Tirando a parte em que eu luto pra sobreviver todos os dias, me diz, por favor, que mal há em querer ser feliz?
Aprendi a ignorar muita coisa e isso me fez bem. Muita gente pequena com mente pequena e pensamentos pequenos quiseram fazer com que o meu grande se tonasse minúsculo. Muita gente sem caráter quis transformar o meu em algo descartável. Muita gente com intenções ruins quis me fazer um ser humano podre e sujo, igualzinho a eles. Eu segui o seu conselho de tentar nunca esquecer o quão boa consigo ser, se me permitir. Talvez você fique orgulhoso disso, sei lá. Não sei mais se posso causar orgulho em alguém. O problema é que no meio desse ninho de gato de ignorar pra lá e ignorar pra cá, assim como eu ignorei as coisas ruins, também ignorei as coisas boas. Muita gente bateu na minha porta e eu a tranquei. Muita gente me deu um sorriso e eu reneguei. Muita gente só precisava de um abraço e eu apenas segui reto, firme, com medo de me desequilibrar e colocar tudo a perder. Eu continuei sendo irônica e sarcástica como sempre fui, mas dessa vez como uma espécie de auto defesa inatingível. Tudo o que eu queria, vez ou outra, era respirar fundo e recomeçar tudo de novo. E de novo. E de novo. E de novo até me cansar de recomeçar e apenas fluir, como uma pluma leve ou uma pena no meio do vento suave do litoral. Eu queria ter um número secreto na minha agenda telefônica que não fosse o seu pra ligar e chamar pra ver o nascer do sol em cima das dunas. Eu queria ter um endereço secreto que não fosse o seu pra correr e me esconder por nada, apenas por me esconder. Eu queria ter uma intimidade gigantesca com alguém que não fosse você pra dizer tudo o que eu quero, o que não quero, o que penso e o que não penso. É isso, sabe? Tudo o que eu preciso é de alguém igualzinho a você, mas sem ser você.
Não é drama. Já foi, confesso, muitas vezes apenas drama de criança birrenta querendo atenção, mas hoje não. Eu não quero atenção nem holofotes ou outdoor com o meu nome - por incrível que pareça. Não quero melação, frescurinha, mimos ou coisas do gênero. Seria masoquista demais ou ridículo ao quadrado se eu dissesse que me contento em observar as ruínas do castelo? Porque, de verdade, sentar nos destroços e respirar fundo nunca foi uma opção tão tentadora. Acho que somente assim, digo, voltando ao começo e tendo a absoluta certeza de que é o final, vou poder me deslocar para o presente e pensar, de uma vez por todas, no futuro. É observando como se perdeu a guerra que a gente aprende a enfrentar novas batalhas sem cometer os mesmos erros, não? Acho que sim. No fim das contas, tudo dá empate: a falta de amor e o amor em abundancia brigam constantemente por um espaço que nunca cabe os dois. Não precisa voltar correndo, me ligar desesperado, mandar carta, e-mail ou qualquer sinal de vida. Foi só uma recaída de… Lembranças? Que seja. Foi só um revirar de olhos como quem diz “puta merda, se eu pudesse voltar no tempo…”, sabe? Mas, por bem ou por mal, não posso. Nem quero. Pela primeira vez na vida tenho a certeza de onde deveria estar, quero chegar e pretendo ir. Meus planos estão cada vez mais seguros e meus sonhos cada dia mais alcançáveis. O problema é que o castelo, querendo ou não, continua ali. E eu sempre volto a apertar o play."

- Capitule

"Tenho uma coisa a dizer: estou livre! E é tão estranho me sentir assim. Eu queria responder que as coisas estão todas fora do eixo quando me perguntam se está tudo bem, mas elas não estão. Por incrível que pareça, está tudo nas ordens. A louça está lavada, o meu cabelo está lavado, minha alma está lavada. A casa cheira a flor e o meu quarto está brilhando de tão limpo. Meu Deus, como é estranho olhar pros lados e não ver o mundo desmoronando, meu coração se partindo aos pedaços e lágrimas rolando do meu rosto. Acreditem ou não: eu, nesse exato momento, estou sorrindo. Meus dedos não carregam dor, saudade, angústia ou qualquer outra coisa ruim. Eu não escrevo pra ninguém. E em nenhuma linha existe você, porque o “você”, definitivamente, não é ninguém. O você perdeu o nome, o endereço, o sorriso e o cheiro. O você é um vácuo eterno. E o mundo não é mais mundo. Talvez aquela antiga teoria de que “às vezes o nosso mundo vira ao avesso e, então, nós descobrimos que o avesso é o nosso lado certo” seja, de fato, certa. Eu não sei dizer se fui eu quem mudei ou se foram as pessoas ao meu redor que mudaram, mas algo mudou. E pra melhor. A minha vida está andando pra frente pela primeira vez. É tudo novo e bom demais pra ser verdade. Penso que a qualquer momento vou levar uma chacoalhada do universo dizendo pra que eu acorde e, como era de se esperar, baldes de merda cairão sobre a minha cabeça - metaforicamente falando, claro. Esse meu sorriso aberto não pode ser de verdade, pode? E essa minha animação pra sair pra festa de hoje a noite não pode ser levada a sério, pode? A minha vontade de ser feliz não pode ser real, pode? Sim, minha querida, pode. Pode e é. Tento me convencer todos os dias, assim que acordo, ao olhar pro espelho e repetir várias vezes seguidas: acabou, acabou, acabou. Acabou a dor, acabou os textos melancólicos, acabou o ciúmes, acabou a nostalgia, acabou as músicas deprimentes, acabou a solidão. Fim do campeonato ou linha de chagada, como queira chamar. Eu só sei que eu me encontrei, depois de milhões de anos vividos aqui dentro a procura de mim. No meio da multidão, do caminho tortuoso e das curvas perigosas, eu me achei. Me achei no amontoado de coisas e pessoas que deixei, que me deixaram, que foram e que chegaram. Me achei nas músicas que eu nem lembrava que gostava, nas comidas que eu deixei pra experimentar outra hora e nas coisas que não fiz por preguiça. Me achei nas manias que eu esqueci que tinha, na minha identidade deixada de lado e na minha personalidade mais profunda. Me achei. E se eu tivesse um único pedido, eu pediria pra não me perder nunca mais.
Seria meio ou até muito ridículo se eu dissesse que não sei ser feliz? Porque, desculpem-me os otimistas, mas eu não sei. Não sei não carregar saudade, não sei não sentir falta de algo, não sei não ter um ponto estável pra me apoiar. Eu passei todos os meus poucos anos vividos me prendendo a alguém ou a alguma coisa que, por menor que fosse, tinham algo em comum: doíam. Seja a dor pequena ou grande, pouca ou de muita intensidade. Eu não sei não doer, entende? É como se a dor fizesse parte de quem eu sou. Ou de quem eu era. A dor não me acompanha mais e a solidão não dita os passos da dança. A verdade nua, crua e direta é essa: eu desaprendi a dançar. Mas, não, não digo isso com um tom de voz cabisbaixo, digo isso como um grito de felicidade: EU DESAPRENDI A DANÇAR. Porque desaprender a dançar na beira do precipício é o melhor esquecimento que podemos ter. Dançar de pés descalços, na lama, na areia, na terra da vida é melhor do que sapatos apertados que fazem calos nos dedos. Veja só que ironia: até os meus miúdos dedos respiram tranquilos agora. E respirar assim, digo, como todas as outras pessoas do planeta, calmo e no ritmo certo, é diferente e bizarro pra mim. Respirar sem pena ou remorso algum de dar um passo pra frente, sem recuar 20 pra trás tem um gosto amargo, mas saboroso. Aprendi que ao longo dos anos, é natural que a gente perca pessoas, momentos e lembranças por aí. E que tentar parar o tempo pra sofrer por cada um deles é burrice. Muita burrice. Esperar demais é burrice, idealizar demais é burrice, acreditar demais é burrice, querer demais é burrice, permitir-se sofrer é burrice, entregar-se é burrice, agarrar-se é burrice… Não tem jeito, a gente nasceu e vai morrer sendo um bando de burros.
E eu nunca tinha observado o mundo com esses olhos, por mais que o meu grau de miopia não tenha aumentado. No fundo, no fundo, há sim coisas boas e bonitas. Porque nem tudo é tão cinza e tão chato quanto aparenta ser. Porque existem sim pessoas legais e com um papo bacana por aí, sem que elas necessariamente tenham segundas intenções. Porque beber realmente pode melhorar tudo por uma noite e uma noite pode sim valer muito a pena. Acho que é isso: eu abracei essa causa de me fazer feliz. Parei de girar um pouco ao redor do que os outros pensam, falam, fazem ou queiram que eu faça. Parei de escrever pra alguém que nunca vai ler. Parei de tentar encontrar qualquer indicio de tristeza ou qualquer motivos chulo pra me fazer ficar em casa em um sábado a noite e lamentar o quanto sou sozinha, triste, deprimida, feia e blá blá blá. Eu queria escrever sobre todos aqueles assuntos que tocam as pessoas que sofrem por amor ou coisas do gênero, mas não consigo. Por muito tempo eu fiz de mim as palavras, hoje eu deixo que elas me façam. E isso não quer dizer que não sinto mais nada ou virei um iceberg ambulante, pelo contrário: eu sinto tudo e o tudo não me sufoca mais. Sentir não rouba mais o meu tempo, não atrasa mais os meus passos, não me engasga de uma maneira absurda. Hoje, eu sei sentir sem extrapolar as minhas emoções e as minhas vontades, sem me confundir ou me bagunçar por dentro. Desculpa, moça, mas eu vim aqui pedir a minha liberação dessa clínica especializada em tratar corações partidos. Eu estou oficialmente me retirando do grupo de pessoas-que-só-sabem-sofrer. I’m free, baby! I’m free…"

- Capitule

"Sei que agora, nesse exato segundo, eu estou ultrapassando as barreiras que foram impostas a nós. Sei também que não devia estar fazendo isso, mas estou. E é pela última vez, eu juro. Você não tem noção do quão difícil está sendo lhe escrever de novo. A cada ponto final de cada frase o meu corpo se estremece, minhas mãos suam, meu pescoço estrala e eu sequer cheguei na metade de tudo o que quero te dizer. Aliás, acho que o fim do que eu sempre quis falar nunca esteve, de fato, próximo assim. Mas hoje é diferente. Eu não vim te agradecer, porque já fiz isso em outros milhares de textos. Eu não vim te xingar ou expor os seus defeitos, porque isso eu também já fiz. Eu não vim, em hipótese alguma, me rebaixar como em tantas outras vezes. Hoje, agora, eu vim fazer o que demorei cerca de quase dois anos pra ter coragem suficiente: colocar um fim em tudo isso. E o tudo inclui você, eu, nós dois, minha vaquinha de pelúcia e a música “Nosso Xote”. Eu queria que você soubesse que, querendo ou não, a sua presença na minha vida foi um divisor de águas nela. Seria em vão dizer o quanto você me fez bem, porque isso está cravado em quem eu sou. Ou melhor, em quem eu fui. Aquela garota que não sabia mais respirar, viver ou sorrir sozinha, hoje sabe - e como sabe! A verdade é que você me quebrou, cara. Do mesmo modo que me reconstituiu no início, no fim você me deixou trilhões de vezes pior. Eu pensei que com você eu era alguém melhor, mas era comigo que você se tornava alguém bom. E tudo o que eu senti, tudo o que eu te disse e principalmente tudo o que eu não te disse, tudo, tudinho, foi de verdade. Eu pensei que nunca conseguiria olhar pra outra pessoa com mais afeto do que eu olhava pra ponta do seu queixo. Eu pensei que nunca mais o meu coração se estremeceria tanto dentro do peito por outro alguém. Eu pensei que jamais deixaria de esperar por você, de querer você, de amar você. Mas eu estava enganada.
Meu querido, você já foi meu. E admitir que não é mais, também não machuca mais. Será que algo dói em você, nem que seja o seu mindinho do pé? Não importa. Perguntas como “será que ele sente falta?” ou “será que ele volta?” deixaram de ter um valor significativo. O “será” não é mais uma hipótese amedrontadora. E isso é tão, mas tão bom de dizer. Talvez você conheça a sensação, afinal, ela o tocou primeiro. Mas o que importa é que ela, enfim, me tocou também: a sensação de liberdade. Olhe como eu respiro calma e tranquila agora. Olhe como os meus olhos permanecem sem lágrima alguma ao afirmar isso. Olhe como eu olho a vida colorida e risonha, mesmo sem você. O tempo passou, percebeu? Eu acabei de me dar conta disso. E o melhor: sem rastros tristes, sem traços de raiva, sem amargura alguma. Eu pensava que jamais me libertaria das correntes que me prendiam ao nosso trem, mesmo que ele estivesse sempre vazio, tanto de passageiros quanto de sentimentos. Eu me enganei, de novo. E nunca pensei que estar enganada trouxesse uma paz de espírito assim.
Se você tiver seguido o meu conselho, posso ter a certeza de que continuas uma pessoa de bom coração. O seu objetivo não era me causar mal algum, eu sei. Mas o fim não justifica os meios e, infelizmente, os meios podem ser dolorosos. Eu joguei toda a culpa pra cima de mim, depois pra cima de você, até que a joguei fora. Não existe culpa. O que existe, na verdade, são dois corações calouros em busca da felicidade. E quem nunca quebrou a cara tentando ser feliz, não é mesmo? A gente não vai ter pena de morte por isso, por mais que tenhamos morrido inúmeras vezes nessa brincadeira estúpida de gostar. Alguém há de perdoar a nossa imprudência. A gente há de se perdoar, algum dia. Mas, hoje, eu queria que você tivesse a absoluta certeza que não existe mágoa alguma em mim. Eu sei que o seu maior medo era que eu te achasse um filho de puta, mas por incrível que pareça, eu não acho. Não mais. O seu nome já foi o meu maior medo de ser lido, a sua voz já foi a minha maior vontade de ser escutada, o seu rosto sempre vai ser o meu maior anseio. No fundo, no fundo, eu nunca vou deixar de gostar de você. Mas com certeza vou aprender a amar outras pessoas. Ou melhor, acho que já aprendi.
Perdi a conta de quantas vezes eu quis você de volta, nem que fosse pra dizer que estava tudo bem, que estava comigo, que me ouviria a madrugada inteira se fosse preciso. Perdi a conta de quantas vezes quis te ligar pra você ouvir, através dos meus soluços, o tamanho da minha dor. Perdi a conta de quantas vezes implorei pra sentir de novo um pouquinho da felicidade que era estar ao seu lado. Perdi a conta, perdi o rumo, perdi você e me perdi de mim. Pensei que viveria para sempre dentro de um pesadelo sem fim, mas, pela terceira vez, estava enganada. Mas uma coisa é certa: eu nunca fui tão transparente quanto fui com você. Nunca, em toda a minha vida, me expus tanto a um sentimento. Nunca fiquei tão pele e osso na frente de alguém, mesmo que metaforicamente falando. O que eu quero dizer é que eu fui quem eu jamais pensei que seria. Você transformou as minhas partes ruins em partes toleráveis, e as minhas partes boas em partes invejáveis. Obrigada por isso. Obrigada, de verdade.
Não queria que isso se tornasse cansativo, monótono ou exagero demais, mas você, mais do que ninguém, sabe o quanto eu odeio ser previsível e o quanto eu consigo ser isso quando escrevo. Ainda mais se o destinatário tem o seu nome. Queria que você soubesse que eu não sinto mais aquela compulsiva vontade e necessidade de encher papéis com trechos de qualquer coisa que me vem na cabeça. Hoje em dia eu silencio as minhas ideias e guardo as dores pra mim, como sempre fiz antes de quebrar as barreiras e compartilhá-las com você. Não dói mais, acredita? Dormir sem o seu “boa noite” não dói mais. Não ter o seu colo, o seu ombro ou as pontas dos seus dedos gelados fazendo carinho no meu joelho não dói mais. Não dói ver as fotos, escutar as músicas ou sair de casa e conhecer gente mais interessante e divertida que você. Eu posso, enfim, dizer que estou curada. O tempo me curou de tudo aquilo que eu pensei ser incurável. E a vida tomou um novo rumo, eu estou seguindo outro caminho, a luz do sol nunca brilhou tão forte assim. É lindo admitir que o passado passou. Se você ler isso - e eu sei que você vai ler, um dia, mas vai - eu espero que nenhuma ponta de arrependimento te toque um pouco mais fundo. Mas espero, de todo o meu coração, que você encontre alguém tão bom ou até melhor do que eu fui ou tentei ser. Jamais duvide do quão maravilhoso você é, por favor. Eu prometo também jamais esquecer que, apesar de toda essa minha estrutura meio enferrujada, no fundo eu também sou esse tal alguém maravilhoso que você enxergava em mim.
Chegamos ao limite. Fim do segundo tempo, baby. Vamos encerrar o placar de 0x0, pois tentar marcar qualquer ponto nesse jogo de alucinados é loucura - é tortura, pra ser mais específica. Não vou te pedir pra que não me telefone mais ou pra que pelo-amor-de-Deus-me-telefone. O triste é ver que todo aquele amor virou um mero “tanto faz”. E mais triste ainda é reconhecer que eu não tenho mais motivo algum pra fingir que sou forte o bastante e aguentar tudo sozinha. Eu desabo mesmo, choro mesmo, grito mesmo, bato o pé mesmo. A melhor parte de você ter saído da minha vida, é que eu tive espaço pra entrar nela. Por mais que não tenha mais sentido escrever sobre o que fomos, tampouco tentar escrever sobre outras pessoas procurando os seus traços no meio das palavras embaralhadas. Não foi perda de tempo te amar, te esperar, te querer. Mas confesso que seria perda de tempo viver pra sempre em uma bolha impregnada com o seu cheiro. Obrigada pela sua parte que me fez feliz, e obrigada ainda mais pela sua parte que me fez sofrer - ou melhor, crescer. Eu não queria que isso ficasse nostálgico, mas foi impossível. Peço perdão por isso, mas não me culpo por todo o resto. Não se culpe também. Foi bom e teve fim… Está tendo um fim. Se precisar ter a certeza de algo, eu te peço pra ter apenas de duas coisas: a primeira foi que eu te amei; a segunda é que essa é a última vez, em toda a minha vida, que eu escrevi sobre você."

- Capitule, O último texto e o primeiro adeus.

"Todo mundo quer ser feliz. Repito: todo mundo. E não adianta negar, você também quer. Aliás, quem não quer? É o desejo de todos nós. Ser feliz é o objetivo principal que nos faz encarar a vida, levantar da cama e escutar reclamações, enfrentar obstáculos e querer superá-los. O irônico é que quanto mais a gente busca ser feliz, mais adiamos a felicidade. Deixe-me tentar ser mais clara: uma garota, por exemplo, diz que só vai ser feliz quando completar 15 anos. Ela, portanto, cresce e diz que só vai ser feliz quando passar no vestibular. E depois só quando casar. E depois só quando tiver filhos. E o ciclo-da-felicidade nunca está completo, porque sempre almejamos mais, mais e mais. Nossas metas mudam a cada dia. Nossos sonhos se realizam e criamos outros. Nossos planos se concretizam e planejamos coisas novas. Poderíamos estar sendo felizes agora mesmo, porque não? Mas o ser humano é teimoso, marrento e orgulhoso. Nós temos todos os melhores e fundamentais motivos pra sermos felizes - saúde é o melhor deles - e deixamos, lamentavelmente, pra dar valor a isso quando passamos por momentos ruins. Não é fácil admitir felicidade. Uma das coisas mais difíceis que existe é dizer que está feliz e, de fato, estar. O mundo é injusto e traiçoeiro, meu bem. Não te contaram que não se deve sair gritando aos quatro cantos quando uma coisa boa te acontece? Não te avisaram que tem muita gente, nesse instante, esperando uma oportunidade pra puxar o seu tapete? Não te disseram as duras palavras de que vivemos em uma sociedade onde a inveja está por todo lugar? Pois digo-lhe isso agora. É vergonhoso ter que admitir, mas essa é a nossa realidade. Realidade onde a felicidade alheia é algo que incomoda - e muito - muita gente. Realidade onde a amizade e a falsidade andam lado a lado. Portanto, meu bem, leve consigo um conselho que lhe dou sem cobrar nada: quando estiver a beira de explodir de tanta felicidade, não saia de casa."

- Capitule

"Foi um dos piores dias da minha vida. Era dia 21 de dezembro, pra ser mais exata. Acordei com a minha mãe chamando o meu nome e, logo após abrir os olhos, ela me deu notícia. O rosto dela estava pálido e assustado, enquanto as mãos tremiam e a sua boca pronunciou trêmulas as palavras que eu jamais gostaria de ouvir. Senti o chão literalmente se abrir, como se tijolos pesados estivessem caindo por cima da minha cabeça. Era por volta das 9:30 da manhã, mas não era um dia comum. O céu estava nublado, cheio de nuvens cinzas e carregadas de chuva - ou de lágrimas. O endereço era o mais terrível e doloso de todos: Rua Aurino Vila, 882. O ambiente do lugar estava pesado, triste, quase insuportável de tanta dor. O mundo parecia ter pedido toda a felicidade que nele havia, enquanto dentro de cada um parecia ser travada uma guerra contra a saudade. Saudade essa que, sem avisar, tomou conta de todos que eu me deparava naquele corredor. Lágrimas, soluços e vozes desesperadas gritando “não, não, não!” era o que se escutava. Nunca senti um aperto tão forte no peito ao ver as pessoas que sempre dividiram comigo momentos felizes, chorando e sofrendo juntas. Todos estavam meio incrédulos com o que estava acontecendo. Todos julgavam ser impossível uma consequência desse tamanho. Todos se perguntavam exatamente a mesma coisa: porque?
Porque, meu Deus? Ninguém entende, aceita ou concorda. Absolutamente ninguém. E então Deus responde em lágrimas, fazendo o céu chorar e o dia perder a cor. Tudo agora é cinza, desde o interior da vida até o interior de mim. Afinal, não é todo dia que a Terra perde um anjo. Mas, em compensação, todos os dias eu perco você. Eu perco o seu sorriso cativante, aberto, sincero. Eu perco os seus comentários bizarros no meio do assunto. Eu perco o seu tom de voz bravo, como quem diz: ninguém-me-entende. E, talvez, ninguém realmente te entendesse. Será que esse foi o motivo? Digo, será que fomos nós que te levamos a causar essa barbaridade? Não importa mais. O estrago já está feito e as dúvidas são mais cruéis do que um dia eu imaginei que fossem. Aceitar não é motivo pra parar as lágrimas, as lembranças e os momentos. O nó na garganta não desata nunca. E minha maior vontade é gritar pra que você volte, por favor, volte. Volte e mude a opinião de que ninguém se importa com você. Volte e veja os olhos inchados que carregamos no nosso dia-a-dia por passar a noite inteira acordados pensando na falta que você faz. Volte e dê de cara com um mundo muito pior e devastador do que ele era, agora que você desligou a luz e resolveu dormir. Acorde, levante, acenda a luz! Diga que tudo não passou de uma brincadeira de mal gosto. Diga que nunca mais vai pensar nisso outra vez. Diga qualquer coisa… Eu juro que daria tudo pra ouvir a sua voz novamente.
Triste é dar adeus a alguém que você não queria sequer dar tchau. E mais triste ainda é saber que nunca mais - repito: nunca mais - irá vê-la de novo. Triste é olhar pra uma foto e querer voltar no tempo uma, duas, três, milhões de vezes se possível. Triste é ver o caminho brilhante que alguém tinha pra trilhar ser cortado ao meio pra sempre. A morte, muitas vezes, não parece justa. E talvez, de fato, não seja. Mas gosto de pensar que você está em um lugar maravilhoso, assim como você. Não vou dizer que é fácil, não seria hipócrita a esse ponto. É difícil - muito difícil. Até porque, além de complicado, dói. Abrir os olhos pela manhã dói, sair de casa dói, ficar em casa dói, lembrar dói e esquecer dói ainda mais por ser impossível. Juro que se tivesse alguma coisa a ser feita pra mudar a situação e te trazer de volta pros meus braços, eu faria. E pra ser ainda mais sincera, não sei como consegui começar esse texto. Não sei como ainda escrevo com o teclado molhado de lágrimas. Não sei mais de nada quando paro pra pensar em tudo que aconteceu.
Muitos julgam a sua atitude, muitos inventam histórias pra poder se sobressair na situação e muitos se questionam outra vez: porque? Ninguém responde, de novo. Sobra sentimento e faltam palavras. Eu queria que você soubesse que o primeiro dia de aula foi terrível sem você. Alguns novatos entraram na nossa turma, mas do que adianta se a nossa veterana preferida não está mais lá? Só Deus sabe o quanto doeu passar pelo portão central daquela escola. E mais ainda entrar na sala com a triste esperança de que a qualquer momento alguém batesse na porta e esse alguém fosse você. A sua cadeira ainda está guardada no seu lugar preferido: perto do ar condicionado. Eu pensei que estava me saindo bem tentando parecer forte, até chegar na penúltima aula e alguém tocar no seu nome. Desabei: essa é a palavra. Uma enxurrada de dor e saudade tomou conta de mim, da sala, da escola, dos alunos e do mundo outra vez. Lembra que certo dia você disse que eu parecia “não chorar na frente de ninguém por nada”? Eu realmente não choro, mas dessa vez chorei. E foi por você.
Acho que nunca mais vou conseguir passar na frente daquele prédio. Foi no quinto andar que você se atirou e levou junto de si um pedaço do coração de cada um. Foi no quinto andar que sonhos incríveis se dissiparam. Aquela madrugada do dia 21 levou embora o sol que renasce a cada manhã. E em todo sorriso se encontra uma ponta de culpa. Em toda gargalhada têm um pouco de saudade. Em todo “bom dia” tem um pouco de receio. Como seguir em frente quando um pedaço de nós é tirado da forma mais bruta e inaceitável? Acho que nunca saberei.

”Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida.” Augusto Cury."

- Capitule em memória de Maria Eduarda do Vale, eterna princesa.

"Você parece um desses moleques que a gente encontra na balada toda sexta-feira, mas de moleque tu não tem nada, Pedro. Seu fardo é carregar 21 anos nas costas e, ainda assim, não fazes jus a eles. Você age como um completo idiota e pensa que pedir desculpas resolve tudo. O problema é que desculpa nenhuma é capaz de entrar tantas vezes em um coração magoado, por mais que a intenção seja perdoar. Eu te dei tantas chances, Pedro, tantas que acabei perdendo o equilíbrio. Joguei o meu orgulho no ralo diversas vezes e fui atrás de você. Abri mão de uma porção de coisas que eu já havia conquistado, só pra te conquistar. Me virei do avesso, me embolei no enredo, me perdi de mim. Tentei ser quem eu na verdade nunca fui, só pra agradar o seu modo perfeccionista de ver as coisas - e as pessoas. Minhas amigas diziam que eu era louca por me envolver com alguém feito você. E eu era. Louca, lunática, pirada - era assim que você costumava me definir. Porque eu podia ser qualquer coisa, contanto que eu fosse sua. Você me bastava, por mais duro, difícil e doloroso que fosse te manter por perto. Eu pensava que você era aquela famosa luz no fim do túnel, até descobrir que, na verdade, estava caindo em um buraco. E eu não me importava em afundar mais e mais naquela massa cinzenta, porque no final de tudo tinha você. Foi por você, P., que eu enfrentei os meus maiores dragões. Pisei em terras sombrias, onde os meus medos dormiam profundos e acabei derrotando todos eles só por ter a sua mão segurando a minha. Eu quase mudei de nome e endereço por não me reconhecer mais. Sabe, Pedro, confesso que tinha me tornado alguém melhor por sua causa e e isso era lindo de reconhecer. Tudo era lindo-demais-pra-ser-verdade. E, na verdade, não era nada. A tua estupidez e arrogância sem tamanho te partiram ao meio, nos partiu ao meio e me partiu em milhões de pedacinhos miúdos insignificantes. Sua boca contava uma versão da história e os seus olhos entregavam outra. Eu não tinha mais por quem lutar ou amar, até aparecer você. Você, radiante, de peito estufado, pronto pra curar todos os meus males. Você, único, de ombros largos e sobrenome de príncipe. Príncipe que acabou deixando o meu castelo em ruínas e trancando a minha felicidade no calabouço. Tudo passou do preto e branco pra um enorme borrão de cores rápido demais. Eu não enxergava nada, Pepeto. Era assim que eu costumava te chamar nos dias que eu mais precisava de atenção, porque te chamar pelo nome parecia soar sério demais. E você acariciava o meu coração tão calmo, mas tão calmo que eu jamais poderia imaginar que essas mesmas mãos o apertariam com tanta força. Eu te entreguei os meus cacos e tudo mais o que havia me restado em troca de um colo que me abrigasse, mas você foi frio, Pedro. E dentre todos os moleques de 16 ou 17 anos que eu já conheci, nenhum deles superou a mais absurda e inaceitável atitude de babaca que você teve. Sem qualquer motivo óbvio ou explicação coerente, você simplesmente foi embora - embora o plano fosse ficar. Talvez você realmente seja esse cara maravilhoso que aparenta através da sua pose de cara-maravilhoso, mas não pra uma garotinha sem graça feito eu. De qualquer modo, a incógnita mais difícil da minha vida ainda tem o seu nome. E a sua barba mal feita, o seu lábio rosado e o cheiro da sua nuca. Por mais que isso tudo faça parte do homem que tinha tudo pra eliminar os menininhos fujões da minha vida, mas acabou se tornando mais um. No fundo, no fundo, eu até que entendo você, Pedro. Talvez, no seu lugar, eu também fizesse o mesmo. Difícil é aceitar que você não fez."

- Capitule

"Não existe meio termo para aeroportos: ou são tristes demais, ou são felizes demais. Nunca é meio-feliz ou meio-triste. Aeroportos simbolizam a chegada do sorriso ou a partida dele, entende? Já vi muita gente sair por aquela porta de desembarque, cuspindo alegria e cheios de abraços confortantes, assim como já vi muita gente entrar pela mesma porta, carregados de lágrimas e saudade. Acho que ninguém nunca havia parado pra pensar em algo tão idiota, mas ontem, a caminho do aeroporto, eu parei. Era madrugada, mas o céu já estava sofrendo a sua metamorfose radiante, mudando do negro escuro pro laranja ácido. O voo estava marcado pras 6:15 da manhã. Seis hora e quinze minutos levariam um pedaço do meu coração. Nunca tinha odiado tanto um aeroporto quanto aquele instante. Nunca, em todas as histórias que já passei nesse lugar onde aviões decolam e aterrizam, me senti tão quebrada por dentro. É isso: aviões nunca descolam sem aterrizar, assim como não aterrizam sem uma hora decolar outra vez. Meu coração trincava a cada barulho de turbina que se ouvia naquele lugar. As lágrimas saltavam dos meus olhos a cada vez que os alto-falantes citavam que era a-ultima-chamada-pro-voo-5996, embarque imediato. Imediatamente o chão de abriu. Malas e mais malas eram depositadas naquela esteira infinita, enquanto tudo o que se ouvia era o eco corrosivo pelos corredores lotados. Tanta gente. Tantas famílias, histórias, pressa e calmaria em um mesmo tom. Pessoas ansiosas pra voltar pra casa; pessoas tristes ao sair dela. Pessoas se despedindo com data pra voltar; pessoas sem data pra voltar ao se despedir. Pessoas que vieram passar as férias na minha cidade; outras que cansaram de passar as férias aqui. Check-ins realizados, sonhos ainda inacabados, hora de partir. Aeroportos - lotados ou vazios - nunca são cem por cento tristes assim. Enquanto uma mãe chora porque a filha vai fazer faculdade em uma cidade distante, outra sorri porque o filho voltou da viajem de formatura. São em aeroportos que os abraços mais calosos são dados, assim como os beijos mais cheios de desejo. E tudo é cinza demais ou colorido demais. Eles podem levar o seu coração embora. Ou podem devolvê-lo a você."

- Capitule, Aeroportos são o porto de alguém.

"Hoje uma pessoa me fez feliz. Uma pessoa. Há bilhões de almas formidáveis em todas as partes do mundo nesse exato momento, mas somente uma em especial foi capaz de me arrancar um sorriso sincero. Dessa vez não foi o meu antigo o amor, nem sequer a minha mãe. Não foi a minha melhor amiga, tampouco o ganhador da loteria me doando o prêmio. Hoje quem me fez feliz foi um mero desconhecido. Sem nome, sem endereço, sem telefone. Ou melhor, com tudo isso, mas ainda assim era um avulso no meio da multidão. Tanta gente andando apressada sem olhar pro lado, tanta gente correndo de sabe-se lá o quê, tanta gente tampando os ouvidos pra não escutar os gritos sangrentos vindos do lado de fora. Até que na esquina da Rua 25 com a 26, lá estava ele. Ele, jovem, bem vestido, sem pressa alguma e carregando um sorriso de dar inveja a qualquer par de olhos. Ele que, no meio do horário de pico, da gritaria, da multidão, do choro da criança, da gargalhada da tia-avó de alguém, parou pra prestar atenção em mim. Estranho isso, não? Essa coisa de um estranho mudar o seu dia com um simples gesto, um comentário sem compromisso algum, um bom humor de contagiar a quem passasse por perto. Hoje eu fui feliz pelo simples fato de que fui notada. E ele não fazia o tipo príncipe-encatado-no-cavalo-branco, mas elogiou a minha camisa do Bob Marley. Perguntou se eu gostava de reggae e riu do meu jeito atrapalhado de reclamar de tudo. Não se passaram sequer cinco minutos de conversa, até que ele soltou uma gargalhada e disse: “você é complicada de um jeito engraçado, isso te deixa diferente das outras”. Por Deus! Alguém – sem apresentar qualquer sinal de embriaguês ou de uso de drogas – me achou diferente das outras. Não que isso soasse como um quase-pedido-de-casamento, mas fui capaz de ver estrelinhas brilhando e o termômetro da minha auto-estima ir as alturas. Eu pude rir sem me preocupar com o fato do meu sorriso ser torto, porque certamente ele já havia reparado nisso e continuou me fazendo sorrir mesmo assim. Indiretamente, ele gostou do meu sorriso. E eu fui demasiadamente feliz por conseguir prender a atenção de um cara há quase meia hora sem utilizar recursos vulgares. O cara me chamou de complicada e, pela primeira vez na vida, eu concordei sem me sentir ofendida por isso. Sou mesmo complicada, erronia, estúpida e ignorante, mas, poxa, eu tenho uma camisa do Bob Marley que eu sei que você adorou. E não tenta esconder, porque eu te vi rir daquele meu comentário sobre o tênis do garoto que acabou de passar do nosso lado. Você não perguntou o meu nome nem pegou o número do meu celular, mas eu não me senti um lixo por conta disso. Afinal, eu nunca vi alguém me desvendar tão fácil em uma só conversa - passageira, informal, sem muitas chances de evoluir pra algo maior, tipo um quase-segundo-encontro – portanto, você já garantiu inúmeros pontinhos ao seu favor na minha listinha mental. Ele estava no horário de almoço e o ônibus havia chegado. Tudo bem, hora do minúsculo conto de fadas ir por água abaixo. Vai ver a gente se esbarra qualquer dia na mesma esquina e no mesmo horário, vai saber. Sei que ele nunca vai ler esse texto, por isso eu fecho os olhos e espero que o recado seja entregue por pensamentos bons: obrigada por me fazer deitar a cabeça no travesseiro com um gosto de felicidade no canto da boca."

- Capitule

"É nessas horas que eu chego a ter pena de mim. Juro. Basta um papel e uma caneta pra tudo começar outra vez. Você vem repentino, devagar e sorrateiro, até estar impregnado novamente nas minhas memórias. Não me julgo uma pessoa plenamente boa, mas sei que não mereço isso. Não é justo. Foi-se o tempo em que eu abrigava a dor na minha casa como uma convidada especial. Confesso que já sofri tudo o que tinha pra sofrer, assim como derramei todas as lágrimas que podia chorar. Toda e qualquer pequena e frágil parte do meu corpo sentiu, pelo menos uma vez, o mundo se esmagar contra a parede da solidão. Não quero tirar a sua dignidade ou menosprezar a parte da minha vida que compartilhei ao seu lado – jamais! O problema é que eu cansei de me rebaixar e matar o meu amor próprio por você. Nenhum ser humano deveria sofrer como eu sofri. E, meu Deus, como foi difícil! Aceitar é horrível, esquecer é doloroso e superar machuca mais que tudo. Pra falar a verdade, a última etapa eu nunca cumpri. Meus vizinhos acham que estou curada, meus amigos pensam que pulei de fase, mas quando a noite chega e tudo parece doer ainda mais, tomando uma proporção ainda maior, eu percebo que não superei. Queria fingir que não é nada, logo passa, as coisas voltarão a ser o que sempre foram, mas não dá. Eu não sou mais a mesma há tempos e disso não tem como fugir. O passado não condena, mas assombra. Você que, por mais que tenha morrido incontáveis vezes aqui dentro, ainda está vivo e arrancando brilhos de olhares carentes aí fora. Eu já te matei com todas as armas possíveis, de todos os métodos imagináveis, mas você cisma em reviver todas as vezes que a minha cabeça deita no travesseiro e as minhas mãos alcançam um papel em branco. E por mais que eu lute, estrofes e mais estrofes são, inevitavelmente, direcionadas ao que fomos. A verdade é dura, meio difícil de aceitar e ridícula de dizer: ainda tenho mil textos não escritos pra você."

- Capitule

"Quando criança, eu pensava que quando me tornasse adulta, viraria realmente uma princesa. Eu queria carruagem, sapatinho de cristal, vestindo longo e um príncipe no seu cavalo branco esperando por mim. O tempo foi passando e eu comecei a aceitar o fato de que a carruagem poderia mudar pra um carro um-ponto-zero, o sapatinho de cristal poderia virar um All Star, o vestido longo mudaria para um short jeans e o príncipe poderia vir em um skate. O engraçado foi que eu cresci querendo ser uma princesa, mas acabei me tornando uma das primas malvadas igual ao conto da Cinderela. A verdade é que essa coisa certinha, rosinha e cheia de frescurite nunca combinou comigo. Depois de longos anos compostos por guerras travadas comigo mesma, aceitei que não nasci pra protagonizar um conto de fadas. Se fosse pra ser uma princesa, eu escolheria ser aquela princesa fora dos padrões-das-princesas. Odeio regras. E detesto ainda mais ser igual a todo mundo. Nesse meio termo entre conto de fadas e vida real, confesso que a parte do príncipe encantado havia sido esquecida. Eu não queria um príncipe. A minha vontade era de ter alguém pra fazer brigadeiro de panela pra mim todos os sábados, contar piadas e situações engraçadas do seu dia a dia e me escutar como se eu fosse a melhor coisa do mundo pra prestar atenção. Príncipes não choram na frente de alguém, não riem ao sujar a camisa com suco de mangaba e não mandam mensagem de bom dia. Eu queria mesmo era um homem, sem composições e babaquices do mundo encantado. Foi aí que um dia eu resolvi entrar em uma imensa loja de doces da avenida principal, porque o meu desejo por aquelas balinhas com papéis coloridos estava insaciável. Como de costume, errei ao puxar a porta de vidro que na verdade deveria ter sido empurrada. Entrei logo em seguida no ambiente que tinha cheiro de alguma fruta boa e tudo, absolutamente tudo, estava nos conformes. Havia vários doces, tipos infinitos de guloseimas, várias calorias enfileiradas em estantes bem enfeitadas e… Um vendedor. Sim, não é surpresa pra ninguém, afinal, toda loja tem um vendedor, certo? Errado. Ele não era qualquer vendedor. O-tal-do-vendedor - que, na verdade, eu não sei nem se tenho a audácia de chamá-lo assim - mais parecia fazer o papel principal de algum daqueles filmes de Hollywood. Ele não era tão alto, mas tinha ombros largos e o maxilar definido. Cabelos pretos, olhos que pareciam ter uma cor exótica de cinza e uma boca que tinha uma simetria perfeita quando ele sorria. Foi então que eu desviei o olhar por um segundo e, fatalmente, encontrei o dele. Ele sorriu, eu sorri. Minhas pernas não se contiveram e balançaram feito uma folha no meio de um vendaval forte, até que ele fez aquela típica pergunta que esses vendedores de comércio são obrigados a fazer, estragando todo o clima do que não tinha clima algum: “Posso ajudar?” Pode, meu caro. Você pode me ajudar a superar todos os meus medos ridículos e o meu vício de ansiedade que é roer as unhas. Você pode me ajudar a arrumar os estragados do furacão que me abalou emocionalmente. E, se não for incomodo, será que você poderia me ajudar a escrever uma história com pelo menos algumas linhas de felicidade? Vamos, se mexa e me ajude! Ajude o meu mundo a ganhar novamente cores tão vivas quanto os lápis da Faber-Castell. Ajude a menina frágil e solitária que habita aqui dentro a dar as caras pro mundo e encarar a vida de peito aberto. Me ajude a ser o que eu sempre quis ser, mas não sei por onde começar. Apenas me ajude a recomeçar, está bem? Mas tudo o que eu respondi foi um mero “Não, obrigada”. O moço, que na verdade era jovem demais pra ser chamado assim, ainda insistiu: “Tem certeza?” Não, pra falar a verdade, não tenho certeza de nada, nem sequer do que eu vim fazer aqui. Qual era mesmo a balinha que eu estava procurando? Ah, verdade, desculpe… Droga. Eu acabo de colocar por água abaixo o meu plano de parecer ser uma mulher madura e decidida, assim que derrubo uns cinco pacotes da bala no chão. Ele sorri outra vez, talvez assim o desastre tenha valido a pena. Desengonçadamente eu tento recuperar os pacotes pesados do chão, até que ele tenta fazer o mesmo e as nossas mãos se encostam, se enroscam, se entrelaçam. Eu tentei abrir a boca pra dizer algo que fizesse aquela situação não parecer tão constrangedora assim, até que ele deu a partida e se apresentou. Era Vinícios o nome do cara que deixou de ser um simples vendedor pra se tornar um ator de Hollywood, até virar “o cara”. O cara com o sorriso mais esbranquiçado e perfeito e brilhante de toda a história dos sorrisos que já passaram por aqui. O cara que me achou interessante, mesmo com todo o meu lado desastrado e criança de ser. O cara que bateu o recorde de tempo em fazer o meu coração ir até a boca e voltar no mesmo segundo. E ele se chamava Vinícios. E era vendedor na melhor e mais linda loja da cidade, porque lá tinha doces. E ele era independente também. E esse cara gostou de mim, eu senti. Agradeci e peguei o meu saquinho de balas, fui até o caixa, paguei. Ele não tirava os olhos de mim, por mais que estivesse do outro lado da loja. Eu quis retroceder os passos e pedir o telefone dele, o endereço, o CEP, o número da conta do banco, qualquer coisa. Mas pensei que seria melhor assim. Nesse dia eu percebi que príncipes encantados nem sempre estão montados no seu cavalo branco, usando aquelas roupas de gala e um topete do tamanho da palma da minha mão. Às vezes eles vestem uniforme de trabalho, andam de ônibus e usam o cabelo bagunçado. E o mais importante: nem toda história de contos de fadas dura pra sempre. Muitas vezes ela não passa de uma tarde em uma dia corriqueiro qualquer, no lugar mais inusitado possível, com os diálogos mais bizarros do século."

- Capitule

"Dingo-bel-dingo-bel: diz a música que todos conhecem e conseguem balbuciar juntos. Enfim, é natal! É natal e a cidade está enfeitada, cheia de luzes e símbolos de paz, amor, saúde e outras tantas coisas que todos nós almejamos. As propagandas da tevê são as mais oferteiras possíveis. Aqui não neva, mas toda chuva que cai é motivo de alegria. Aliás, tudo é motivo de alegria, afinal, é natal. É natal e os mais variados tipos e tamanhos de Papais Noeis estão por todo lugar. As crianças correm desesperadas tentando alcançar o brinquedo dos sonhos. Os adultos correm apressados pra comprar os presentes e os ingredientes para a tão famosa ceia do dia 25. Que época mágica, não? É o que dizem por aí. Há boatos de que o espirito natalino muda as pessoas, nem que apenas por alguns dias. Talvez seja verdade, talvez não. Acho que o que muda as pessoas de verdade não é o natal, o papai noel ou os sinos a tocarem, mas sim a esperança. O natal é a época do ano em que o nosso baú de esperança e desejos transborda, por isso nos tornamos pessoas melhores. A verdade é que tentamos ter um bom coração sempre, mas sempre é um tempo muito extenso e isso nem sempre é possível. “Se você não se comportar, o papai noel não vai passar em seu trenó pra entregar o seu presente”: dizem os adultos às crianças, mesmo não acreditando em nenhuma dessas baboseiras de trenó, papai noel, renas e afins. Eles dizem isso porque motiva os nossos pequenos projetos de humanos a serem pessoas boas e com atitudes e pensamentos bons. O mundo precisa do natal por isso: somente o natal carrega a esperança de uma nação melhor. O triste é que apenas nesse época do ano é que, finalmente, as pessoas lembram de ser caridosas, amorosas e honestas. O papai noel existe, mesmo que habitando exclusivamente as nossas imaginações, pra nos fazer sonhar e acreditar em algo melhor, por mais que o presente ideal não seja ganho e o sonho não seja realizado. Dingo-bel-dingo-bel: a musica ainda soa nos nossos ouvidos, como um hino que jamais sairá de moda. É natal e abraços são sempre bem vindos. É natal e tudo de ruim e triste e feio simplesmente evapora. É natal! Cante, ria, dance, comemore, brinde, festeja, sorria, viva um pouco mais. Há duendes, fadas, esquimós e bonecos de gelo - ou bonecos de areia, vai saber. É natal, mas se você ainda não percebeu, o mundo não se tornou 100% melhor por causa disso. Olhe para os lados com mais atenção e perceba que existe uma criança que não ganhará presente algum. Você é capaz de ver aquela estrela que brilha triunfante no céu? Acredite, existe alguém que, mesmo sendo noite de natal, não a enxerga porque está admirando o teto de um hospital. Existem milhares e milhares de pessoas que não sentem essa magia louca de natal. O papai noel não é um bom velhinho como todos dizem, porque ele não é capaz de presentear todos que merecem ser realmente presenteados. Enquanto você vibra por ter um grande peru e uma lindo banquete a sua espera, mesmo sendo noite de natal, existem famílias que não tem o que comer. Sobra boa vontade e falta boas atitudes. Natal é sim, de fato, uma época de arte. O problema é que nem todo mundo sabe como ser um artista. Todos nós podemos - e devemos - nos tornar um Papai Noel algum dia, nem que ao menos uma vez na vida. Não, não quero dizer que todos devem engordar 50 quilos ou vestir uma roupa vermelha enquanto diz Ho-ho-ho-ho. Quero dizer que todos devem inspirar de verdade o espírito natalino e fazer alguém sorrir, ajudar outro alguém sem pedir nada em troca e dar um presente singelo sem esperar receber outro melhor. O natal serve para que nos aproximemos de nós mesmos, de quem fomos ao longo do ano e de quem pretendemos ser. Dingo-bel-dingo-bel: a música ainda ecoa pelos corredores do mundo e só então eu posso ter a certeza de que o natal não começa e termina agora. O natal dura pra sempre."

- Capitule, Feliz Natal!

"E se o mundo acabar? E se gases realmente saírem dos buracos da terra, um meteoro gigante cair sobre a nossa atmosfera ou o sol resolver de verdade engolir o nosso planeta? Há tantas hipóteses, teses e perguntas. E se os loucos e lunáticos estiverem, de fato, certos? A pergunta é: você fez tudo o que queria fazer? O mundo pode acabar a qualquer minuto e você continua estático no sofá da sua casa assistindo um programa ridículo qualquer na TV. O mundo pode acabar e você não vai ter roubado um beijo daquela garota por quem sempre foi apaixonado. E aí? Você vai correr pra fazer e dizer tudo o que não fez e não disse nesses últimos tempos? A vida pode ter um fim a qualquer momento. Então, olhe um pouco pros rastros que você deixou pelo caminho e pergunte se valeu a pena. Você queria ser como é agora? Os seus sonhos foram realizados? Ou melhor, você lutou para realizar os seus sonhos? Acorda, amigo! Pode ser o fim dos tempos e nenhuma dessas lágrimas irá te salvar. A angústia e a mágoa não te servirão como escudo. As estrelas podem despencar do céu nesse exato segundo e tudo estará acabado. O ódio que você guardou pra si não valerá de nada. Ninguém perguntará o que você deseja ter escrito no seu epitáfio. Pra falar a verdade, ninguém lembrará de você. As coisas boas que você fez na vida vão ser esquecidas do mesmo modo que as coisas ruins. O mundo estará caindo aos pedaços e, dessa vez, não será metaforicamente. Talvez os lúcidos fiquem incrédulos, mas um dia tudo isso irá por água abaixo. A roupa de marca que você tanto fez birra pra ter, não terá mais significado nenhum. O celular de última geração que você pediu de natal e fez com que o seu pai se endividasse até o pescoço, também não. Coisas fúteis finalmente serão coisas fúteis. Quando o apocalipse estiver acontecendo, você se lembrará de todas as vezes que deu mais importância para as coisas materiais do que para o que se é por dentro. Inevitavelmente você vai se arrepender e um nó gigantesco irá se formar dentro da sua garganta. Os zumbis, os extraterrestres ou as máquinas destruidoras irão exterminar toda essa babaquice que a gente sempre valorizou. Quando o buraco negro estiver engolindo tudo que tiver pela frente, você se recordará da sua família e das vezes em que ela foi a sua segunda opção. E mais uma vez você vai se lamentar, porque o mundo estará acabado e nada irá poder rever essa situação. Loucura isso, não é? Quero dizer, chegar o dia em que todas as guerras, desavenças e conflitos não significarão nada. Lady Gaga, Brad Pitty e Gisele Bundchen se tornarão tão humanos quanto um mendigo, um padeiro e um jornaleiro comum. O ganhador da mega-sena pode até ser um bilionário, mas dinheiro algum irá livrar ele do fim que todos nós teremos. Vamos todos pro fundo da terra! Ou, pensando bem, pro fundo do espaço. Pode não ser dia 21 de dezembro, mas algum dia o mundo realmente vai acabar. Esse dia pode ser amanhã, depois de amanhã, próxima semana ou próximo século, vai saber. Por isso, tire um pouco do seu tempo e se pergunte se a sua passagem por essa vida valeu de algo. Você ajudou o mundo a ser um lugar melhor? Você realizou todos os seus desejos e as suas vontades? Você superou os seus medos? Essa é a hora pra focar nas perguntas e analisar as respostas. Somos todos meros brotos de feijão procurando saciar a nossa própria fome. Procuramos pela paz de espírito e pela felicidade plena. Vivemos em busca de algo que, muitas vezes, morremos sem saber do que se trata. Podemos ser esmagados e aniquilados a qualquer momento, afinal, não passamos de pontinhos insignificantes em meio a vastas galáxias. E e o mundo acabar? Enfim chegaremos ao fim."

- Capitule

"Eu pediria você. Se papai noel existisse, se estrelas cadentes fossem de verdade e se moedas na fonte funcionassem, eu pediria você. Quando as velinhas do bolo do meu aniversário se apagaram e eu fechei os olhos, foi por você que eu pedi. Eu rezei pela sua felicidade, pelo seu caminho belo e pelas coisas boas que ainda darão certo na sua vida. Nesse natal, se um velho gordo e barbudo aparecesse em um trenó e perguntasse o que eu iria querer de presente, mesmo que eu pudesse escolher qualquer coisa melhor e mais valiosa no mundo, eu juro que o meu desejo seria que você saísse no meio das renas de braços abertos pra mim. Embaixo da minha árvore verde e pontiaguda de natal, eu queria que você estivesse embrulhado no papel de presente mais lindo da cidade. No meio dos piscas-piscas que enfeitam os postes da avenida, eu queria que fosse o seu sorriso que eles desenhassem no céu. E os fogos de artifício poderiam iluminar a noite com o seu rosto. Eu só queria que você tivesse consciência de que seria você. Se eu ganhasse o palito premido do picolé, eu recusaria o prêmio e pediria por você. Se eu acertasse os números da mega-sena da virada, eu trocaria o dinheiro e todas as coisas que ele pode comprar por você. Se o mundo realmente acabasse, a minha última súplica seria você. É você. E eu continuo pedindo, forte, que não deixe de ser nunca. Se uma bomba caísse exatamente agora em cima da minha cabeça e eu não conseguisse terminar esse texto, saiba que eu morreria pedindo por você. Só você, por favor, nem que seja um pouquinho. Eu preciso do ar que você respira pra poder suprir um pouco a distancia que te prende de mim. Eu preciso te olhar inúmeras vezes e ter a absoluta certeza de que em cada uma delas o meu desejo só faz aumentar. Se a terra fosse engolida pelo sol, eu descobriria outro planeta em outra galáxia só pra te fazer feliz. Quando eu acordei sozinha e tomei meu suco preferido sozinha hoje de manhã, foi pela sua companhia que eu pedi. Nas vezes em que eu provei uma nova roupa e não tinha ninguém pra aprová-la, foi pelas suas sugestões ignorantes que eu pedi. Nos dias em que não fez sol e o dia estava propicio pra um filme romântico à dois, foi pela sua preferencia por filmes de terror que eu pedi. Eu venho pedindo por você desde sempre, mas nenhuma alma caridosa me dá o privilégio de te ter. Então eu peço agora: vem. Vem e larga essa sua gravata cor-de-nada no meu sofá. Vem e deixa os seus sapatos no tapete central da minha casa. Vem e poupa os meus próximos mil anos amargurados sem você ao lado. Eu posso não ser a melhor pessoa dentre todas que habitam a Terra, mas com certeza sou a melhor que pode te fazer feliz. Porque, por mais que você negue e responda “não” para todas as minhas súplicas, eu ainda serei a única que pede por você."

- Capitule

"O problema é que eu sou feliz demais, cara. Eu sou feliz quando uma amiga me convida pra ir até à casa dela e me oferece um pedaço de bolo do meu sabor preferido. A gente dança, brinca, se diverte, fala das vadias que odiamos e dos caras que idolatramos. Até que, no meio da conversa, surge o seu nome. E a felicidade vai por água abaixo. O meu papel de mulher-que-superou se desmancha como um gelo no microondas. Eu sou feliz demais quando um cara solta uma cantada ridícula pro meu lado, mas também sou triste demais porque essas idiotices me lembram você. Não era o loiro dos olhos verdes ou o moreno dos olhos-cor-de-mel que eu queria, era o par de olhos castanhos escuros e o corte de cabelo baixo que você tem. Juro que até abriria mão do ruivo de olhos azuis em troca da sua risada solta. O problema não é ser feliz, o problema é que qualquer tipo de felicidade me lembra a nossa. E qualquer indicio de risada me lembra a época em que eu sorria fácil ao seu lado. Nada dói mais, mas vez ou outra tudo começa a doer sempre. Eu gosto do bolo que a minha amiga me oferece, mas gosto ainda mais da sua barba rala e dos pelinhos finos da sua nuca. A música da boate me faz ter vontade de dançar, mas lembrar dos seus olhos se enrugando ao se espreguiçar logo de manhã me faz sorrir. As coisas boas e plenas agora tem o seu rosto, o seu cheiro e o seu modo de andar. Semana passada eu recebi um telefonema que avisava que eu tinha conseguido um novo emprego ganhando três vezes mais do que o antigo e, puta merda, como eu fiquei feliz! Pulei, gritei e brindei com o melhor champanhe que estava estocado há séculos. Durou pouco, confesso, até o momento em que eu lembrei que esse seria o champanhe do nosso casamento e fiquei triste outra vez. Conseguir um novo cargo de trabalho é maravilhoso, mas não vale de nada se eu não posso dividir essa conquista com você. Entende toda a melancolia? Eu sofro porque tenho todos os motivos do mundo pra ser feliz, mas nenhum deles é o bastante. Eu poderia escolher mil e um caminhos diferentes pra trilhar ao lado de mil e uma outras pessoas diferentes e mais bem vestidas do que você, mas nenhum deles é tão bom quanto o esburacado e árduo caminho que era estar ao seu lado. Os meus impulsos gritam pra que eu te ligue, te chame, te convide novamente pra entrar aqui, ali, em mim, na gente. Respirar fundo é a resposta pra tudo. Não ligo, não chamo, não falo sequer um “oi”. É melhor assim, digo, cada um pro seu lado e a ironia no meio. Eu continuo sendo minha vida morna, com vestidos curtos em um dia e calça de moletom em outros. Meu ciclo de amizade não muda nunca, mas saber que os verdadeiros não se vão como você fez ainda me mantém de pé. Minha melhor amiga continua me dando entradas variadas dos mais diversos lugares bens frequentados da cidade e eles sempre tem o mesmo fim: a lata do lixo. O ruim é saber que eu nunca vou encontrar alguém tão interessante e sensual e moderno e tudo-que-eu-sempre-quis como você em nenhum desses locais meia-boca. Droga, droga, droga! Oh shit. Todos esses merdas sarados e tatuados não chegam aos seus pés. E nenhuma divindade, seja lá ela qual fosse, é capaz de sentir o quanto eu queria que toda essa podridão de gente fosse melhor do que os seus livros, os seus discos e o seu lençol rasgado, mas elas não são. O mundo é monótono e vazio e cheio de poluição visível na tua ausência. Em um segundo ou outro, confesso que consigo ser tão feliz ao ponto de vê-lo em cor-de-rosa, mas logo em seguida tudo vira pó e cinzas de novo. Nenhuma felicidade é digna de ser vivida até a ultima gota que possui se você não estiver incluso na virgula principal dela."

- Capitule

"Vejo as minhas mãos calejadas e percebo o quanto já lutei, cai e me reergui nessa vida. A minha cabeça dói. As lembranças pesam, os dias pesam, as lágrimas pesam. Tudo pesa. O passado atormenta e o futuro amedronta. A respiração ofegante é a prova de quantos monstros derrotei durante o caminho. Não é a fácil estar sempre tão só, mas com o tempo a gente acostuma. Se você me conheceu há primaveras atrás, provavelmente se assustará em me encontrar no fundo do fundo do fundo do fundo do poço. Existem mais do que sete palmos de chão acima de mim, mas eu ainda estou viva. Disse bem: ainda. O meu corpo vaga por entre bueiros e lixões imundos, enquanto a minha alma repousa em um lugar que eu não sou capaz de chegar nunca. Veja só a ironia: até mesmo a minha alma não suportou viver dentro da minha conturbação e fugiu de mim. Todos sempre fogem de mim. E eu continuo correndo e me escondendo de todos. O sol é feio porque cega a minha visão. A lua não é bonita porque me lembra a escuridão que me ronda. As estrelas são odiadas por conseguirem brilhar sozinhas. E eu continuo me contorcendo o máximo que posso pra excluir o resto do mundo do meu mundo. Antes eu era leve e transbordava amor por tudo isso, moço. O céu continuava cinza, mas eu amava o cinza. Eu amava as roseiras da casa do menino que vendia jornal, a espuma do barbeiro que meu pai frequentava toda manhã e o livro que meu irmão não terminava de ler nunca. O amor fazia parte de mim mais do que eu, por isso um dia ele me consumiu e se transformou em raiva e nojo. A minha vontade, agora, é de chacoalhar o senhor executivo apressado que passa por mim e lhe dizer pra parar de correr contra o tempo, porque eu também corria de tudo e hoje o tempo me estagnou. Hoje o tempo me tomou o tempo e eu não tenho mais tempo pra nada. Se uma coisa que aprendi nesses poucos anos vividos, essa coisa foi que não adianta a gente querer voltar o ponteiro dos relógios. Cazuza disse uma vez: o tempo não para! E vejam só, também parou pra ele. Aos poucos o tempo para pra todos nós. Uma grande conhecida minha que, na verdade, também já foi uma grande amiga, companheira e confidente, hoje me esconde o olhar. Ela não me reconhece mais e eu não tenho do que reclamar: eu também não me reconheço. Quem é essa no espelho que está na minha frente? De quem são esses pés perfurados? E essa rosto pálido pertence a quem? Sou eu. Eu sou todo esse embolo de merda que me tornaram. Tenho o impulso de espremer o universo até ele me devolver a inocência e o carisma que habitava em mim. Eu era plena de felicidade e hoje me sinto plena de mágoas. Algo, no fundo, me diz que não sou uma pessoa ruim. Ruim mesmo são todos vocês que me fizeram ser o que eu disse que jamais seria. A chuva não me molha mais, porque chuva é coisa da natureza e a natureza é boa e consequente só atinge as pessoas boas também. Eu não tenho um coração ruim, mas me fiz de alguém incapaz de amar. Quando eu era doce feito mel e delicada como uma flor, as pessoas abusaram da minha boa vontade e das minhas boas intenções. Agora sou feito rocha, me esquivando de qualquer indicio de afeto e sorrisos formidáveis. Meus ombros doem, pois carreguei durante todo esse tempo bagagens desnecessárias e sentimentos que não valem a pena. Roí todas as minhas unhas pela esperança de dias melhores. Cansei de me importar com coisas que ninguém valoriza. Cansei de fazer das tripas coração por quem não me faz sequer de primeira opção. Estou cansada de tudo e sinto que tudo também está cansando de mim. A vida nem sempre é justa e o destino nem sempre é belo. Não vejo a hora de fechar os olhos e dormir para sempre, mas esse meu pensamento está errado. O mundo não deveria acabar todos os dias de formas tão violentas assim que acordo. Você não entende? O ar não tem mais cheiro de ar e o verde agora é roxo. As coisas perderam o sentido e eu me perdi de mim.
Isso não é certo.
Eu ainda tenho apenas 15 anos."

- Capitule